
A profundidade de engenharia é o próximo passo para a defesa portuguesa
Portugal aumentou depressa a despesa em defesa e gasta mais dela no país. O próximo passo é manter a profundidade de engenharia em Portugal enquanto a IA muda a forma de construir software.
Portugal aumentou depressa a despesa em defesa e começou a gastar mais dela no país. O mais difícil é manter a profundidade de engenharia em Portugal enquanto a IA muda a forma de construir software. A defesa nacional precisa que os engenheiros, e o trabalho que fazem, fiquem em Portugal.
1. A indústria de software contava com um mundo global
Durante trinta anos, a indústria de software funcionou como um único mercado. Uma equipa em Lisboa podia escrever código numa cloud americana, com ferramentas americanas, para um cliente alemão.
Portugal saiu-se bem neste mundo. As exportações de serviços de TI e telecomunicações duplicaram entre 2019 e 2023 (Banco de Portugal). Os especialistas em TIC são hoje 5,2% do emprego, um pouco acima da média da UE (Década Digital 2025).
Neste modelo, poucas decisões são tomadas em Portugal. O cliente e a infraestrutura estão normalmente no estrangeiro. Isto custa pouco até um fornecedor ou um governo restringir o acesso.
2. O acesso deixou de ser garantido
Em janeiro de 2025, o Framework for AI Diffusion dos EUA dividiu o mundo em níveis de acesso a chips de IA. Espanha e França ficaram no primeiro nível. Portugal, membro da UE e da NATO, ficou no segundo, com limites. A regra foi retirada em maio de 2025, mas mostrou que até um aliado pode limitar o que Portugal compra.
A UE já inclui este risco nas suas próprias regras. O programa de empréstimos para a defesa SAFE limita os componentes de fora da UE a 35% do custo. O comprador também tem de poder alterar o sistema sem autorização de um país terceiro.
Portugal agiu depressa. O Governo antecipou a meta de 2% do PIB em defesa de 2029 para 2025 (ECO), e a NATO estima que Portugal a atingiu (NATO, 2026). Portugal foi um dos primeiros países a ver aprovado o seu plano SAFE, de 5,8 mil milhões de euros. O plano põe no centro drones, satélites e aviões feitos em Portugal.
Segundo o Kiel Institute, a despesa em defesa aumenta o crescimento quando compra produtos novos desenvolvidos no próprio país. Portugal acolhe também um acelerador da NATO DIANA em Almada e um centro de testes de sistemas não tripulados em Tróia (ECO).
3. Muitos engenheiros trabalham em produtos estrangeiros
Cerca de 75 000 portugueses emigraram em 2023 e cerca de 65 000 em 2024 (Observador). Muitos dos engenheiros que ficam trabalham para empresas estrangeiras. Segundo o Banco de Portugal, empresas com capital estrangeiro fizeram 85% das exportações portuguesas de serviços de TI e telecomunicações em 2025 (ECO).
Nestas empresas, o código e as patentes pertencem normalmente à sede. Portugal apresenta 34 pedidos de patente europeia por milhão de habitantes, contra 153 na UE (EPO, 2025). A maioria dos unicórnios portugueses mudou a sede para o estrangeiro (ISCTE).
O FMI conclui que as empresas portuguesas começam pequenas e raramente crescem. Cerca de 0,1% das novas empresas tornam-se "gazelas" de crescimento rápido, contra cerca de 0,5% num país europeu típico (FMI, 2026). Portugal precisa de mais empresas que cresçam e mantenham o trabalho no país.
As economias maiores pagam mais e oferecem projetos maiores. As pessoas e as ideias vão para elas, por emigração ou por contrato.
4. A profundidade é difícil de reconstruir
Profundidade de engenharia significa ter pessoas que sabem porque é que um sistema funciona como funciona, por exemplo um compilador ou uma pilha de protocolos. Uma equipa assim leva anos a formar e pode desfazer-se depois de uma única reorganização.
A maior parte deste conhecimento nunca fica escrita. Um documento de design diz o que o sistema faz. Raramente diz que abordagens falharam, ou porque é que um parâmetro tem aquele valor. Os engenheiros seniores passam este conhecimento aos juniores trabalhando ao lado deles durante anos.
Um centro de desenvolvimento estrangeiro recebe normalmente uma parte do sistema, como um módulo ou uma campanha de testes. As decisões de arquitetura ficam na sede. Amador e Stehrer (Banco de Portugal, 2014) encontraram o mesmo padrão em toda a economia. Portugal acrescenta valor no meio de cadeias que são desenhadas e vendidas noutros países.
Quando os seniores saem, os juniores perdem quem os ensina, e o conhecimento pode desaparecer em poucos anos. O FMI conclui que a diferença de produtividade por hora entre Portugal e os EUA se mantém estável desde 1990 (FMI, 2026).
Na nossa opinião, a profundidade perdida raramente volta, porque formar pessoas que percebem um sistema leva muito mais tempo do que comprar o sistema.
5. A IA torna a corrida mais difícil
As ferramentas de IA mudam a velocidade a que se constrói software, e as empresas portuguesas têm de as usar para competir.
Os modelos de fronteira são desenvolvidos nos EUA e na China, tal como a maioria dos chips e centros de dados onde correm. Uma equipa portuguesa que assenta o seu trabalho nestes modelos depende de um fornecedor estrangeiro. O fornecedor define o preço e as condições. A regra de AI Diffusion mostrou a rapidez com que o acesso pode mudar.
Usar estas ferramentas também significa enviar código e logs ao fornecedor. Conforme o contrato, o fornecedor pode guardar este material ou usá-lo para treinar o próximo modelo. Cada equipa decide isto sozinha. Somados, estes envios levam conhecimento de engenharia português para fornecedores estrangeiros.
6. Depender só da IA transforma engenheiros em escritores de prompts
Quando um modelo escreve o código e outro modelo o revê, a equipa deixa de aprender como funciona o seu próprio sistema.
Os engenheiros juniores tornam-se seniores fazendo eles próprios a parte difícil, por exemplo encontrar a causa de uma condição de corrida. Se um modelo fizer esse trabalho, o júnior recebe a resposta sem a compreensão. Com os anos, a equipa perde as pessoas capazes de verificar o modelo.
Os prompts, as correções e as alterações aceites também vão para o dono do modelo. Uma equipa nesta situação não consegue trabalhar quando o modelo erra ou fica indisponível.
7. O que Portugal pode ter como seu
Um país pequeno pode ser dono dos métodos que verificam se o software está correto. Isto segue a direção que o Governo definiu para a despesa em defesa e para o PRR.
- Construir sobre matemática e algoritmos. Um modelo de fronteira precisa de um cluster de chips que Portugal pode não ter autorização para comprar. Um analisador estático ou um solver SMT corre num portátil. Uma equipa pequena consegue perceber uma ferramenta destas por inteiro e ensiná-la à equipa seguinte.
- Produzir resultados que outros possam verificar de novo. Uma análise ou uma prova dá sempre a mesma resposta sobre o mesmo código, por isso um auditor pode repeti-la. A norma de qualidade de software da NATO, AQAP-2210, prevê registos de verificação e de testes que o inspetor do comprador possa rever.
- Publicar parte do trabalho como open source. Um fornecedor não pode retirar código público, e os engenheiros de qualquer empresa portuguesa podem aprender com ele.
- Pôr a IA sobre factos verificados. Um modelo que recebe resultados de análise verificados, resultados de testes e traces de execução tem menos margem para adivinhar. Os factos ficam em máquinas locais, e a equipa decide que modelo os vê.
Esta abordagem demora mais do que embrulhar a API de outra empresa, e continua a funcionar quando as condições ou as regras de exportação mudam. É assim que construímos as nossas ferramentas na Interpretica, em Portugal, num projeto PRR. Temos um interesse óbvio neste argumento, por isso os números acima têm ligação para as fontes.
O orçamento de defesa de Portugal quase triplicou desde 2014, de 2,3 para cerca de 6,8 mil milhões de euros estimados em 2026 (NATO). O país escolheu gastar mais dele cá dentro. Essa escolha só dura se os engenheiros que percebem o software ficarem em Portugal.